Advogados societários são mais disputados no mercado
A demanda por advogados societários deve aumentar 20% em 2010, em comparação a 2009. Em pelo menos quatro escritórios de advocacia procurados pelo Valor, há vagas abertas para a função. Segundo especialistas, a procura acontece por conta do aumento da concentração empresarial em setores como telecomunicações, energia, indústria química e varejo, além do crescente apetite dos fundos de private equity por investimentos no país e no exterior. "A demanda também subiu em razão de uma nova onda de abertura de capital das corporações", analisa Daniel Kalansky, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito Empresarial (Ibrademp).
O advogado societário é especializado na constituição e reestruturação de empresas e também na aquisição e incorporação de organizações. Pode orientar processos de compra e venda de participações societárias e conciliar disputas entre acionistas. No dia a dia do escritório, elabora a documentação que dá respaldo às operações, coordena auditorias e deve estar sempre integrado à área tributária dos clientes.
No GMP Advogados, que atende empresas de grande, médio e pequeno portes nacionais e internacionais, o aumento de trabalho na área societária no primeiro trimestre de 2010 foi de 23%, em relação ao mesmo período de 2009. "Até o final do ano, esse crescimento deve chegar a 30%", afirma Tatiane Gonini Paço, sócia responsável pelo setor tributário e de reestruturação da banca de sete advogados, sendo dois societários. "A busca por especialistas aumenta na mesma proporção dos processos, inclusive nos escritórios parceiros. Mas, apesar da procura, não há profissionais suficientes para preencher todas as vagas."
A intenção de Tatiane é contratar um advogado societário até o final de julho e admitir outro profissional até dezembro. "Estamos com quatro operações que envolvem constituição de empresas e participações de sociedades estrangeiras em companhias nacionais", diz. Segundo a especialista, o segundo semestre de 2008 e o primeiro trimestre de 2009, marcados pela crise financeira, travaram o fluxo de processos societários no Brasil. "Muitas operações ficaram estagnadas até que se pudesse entender aquele período. Agora, com o mercado aquecido, as operações foram retomadas e a tendência é de aumento do volume de contratos."
O GMP costuma admitir novos candidatos com a ajuda de recrutadores ou por indicação. "A disputa por um bom advogado societário é grande e a contratação pode demorar." Para Tatiane, o bom profissional deve ter iniciativa, conhecimentos de direito civil e tributário, além de ser um grande negociador. "O advogado não é consultado apenas para promover uma sociedade, mas para assessorar decisões e tomar a frente de negociações", diz.
Com 70 advogados - sendo dez societários - o escritório Peixoto e Cury aposta em um crescimento mínimo de 20% na demanda em 2010, em comparação ao ano passado. "Os advogados estarão à frente de projetos que surgirão com o aumento de investimentos no Brasil", afirma o sócio José Ricardo de Bastos Martins. No escritório, a forma mais comum de contratação é por indicações de colegas. "Mas com o aumento da procura, temos recorrido a firmas especializadas em busca de novos talentos."
Para Marcelo Braga, da Search Recursos Humanos, a procura por advogados societários ganha força desde o final de 2009 por conta do aumento do volume de aportes externos, abertura de negócios, fusões, aquisições e novas ofertas públicas iniciais de ações (IPOs). "Os principais setores que solicitam esses profissionais são o de telecomunicações, biotecnologia, nanotecnologia, software, óleo & gás, e infraestrutura", diz. No ano passado, a Search também recrutou especialistas para o segmento de transportes e construção.
Segundo Kleber Luiz Zanchim, sócio da área de operações estruturadas do Souza, Araújo, Butzer e Zanchim Advogados (novo nome do Marcelo Neves Advogados e Consultores Jurídicos), a banca deve contratar mais dois advogados societários até o terceiro trimestre de 2010. "Estamos envolvidos em duas operações que demandarão mais profissionais e há outras duas ações em análise."
Segundo Braga, a remuneração dos profissionais do mercado apresenta grande variação e é influenciada por fatores como tempo de serviço, qualificação, setor e região de atuação. Um advogado pleno recebe de R$ 7 mil a R$ 12 mil mensais e um sênior ou gerente ganha de R$ 12 mil a R$ 20 mil por mês. "Para os envolvidos em processos de IPO, fusões e aquisições, a remuneração variável pode ser ainda maior", ressalta. Os ganhos mensais também podem estar vinculados a metas e bônus.
Para Kalansky, do Ibrademp, os advogados societários estão seguindo para bancos, empresas, escritórios de advocacia e fundos de investimento. O perfil do profissional também foi repaginado nos últimos dez anos. "As empresas esperam que o advogado seja hábil e encontre soluções rápidas." Kalansky afirma também que as corporações querem um profissional experiente e com boa capacidade de expressão. "Ele poderá participar de uma mesa de negociação, com investidores e empresários, para explicar cláusulas contratuais."
De acordo com Flávio Meyer, sócio da área de fusões e aquisições do Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados, no início da década de 1990, os processos eram menos frequentes e profissional ficava restrito ao dia a dia das companhias atendidas pelos escritórios. "Hoje, com a maior participação de investidores estrangeiros e brasileiros na economia, os processos de consolidação se tornaram comuns e o trabalho do advogado societário passou a envolver operações mais complexas", diz Meyer. A banca de 300 profissionais, com 78 especialistas em direito societário, costuma contratar novos talentos ainda nas universidades.
Para o escritório Trench, Rossi e Watanabe, o ano ainda promete mais movimentação na área societária, principalmente no setor de óleo & gás, por conta de oportunidades relacionadas à exploração do pré-sal. A banca acaba de intermediar a venda de ações da Gás Brasiliano Distribuidora (GBD), da italiana Eni, para a Petrobras. O processo de US$ 250 milhões envolveu 15 profissionais que investiram oito meses de trabalho na análise de questões fiscais e regulatórias, além da negociação com seis empresas interessadas na aquisição.
Experiência internacional pode fazer a diferença
Inglês fluente, vivência no exterior e ter advogado para sócios controladores e minoritários. Esses são os principais requisitos que podem decidir uma vaga de advogado societário, segundo especialistas em RH e sócios de médios e grandes escritórios. "Sem falar de habilidades como ser um bom negociador e conhecer a redação contratual", diz Marcelo Braga, consultor da Search Recursos Humanos.
Segundo Daniel Kalansky, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito Empresarial (Ibrademp), experiência internacional também é importante. "É desejável ter trabalhado em um escritório forte na área, ter diploma no exterior e atuado em alguma banca fora do país", diz.
O Peixoto e Cury, por exemplo, mantém um escritório em Nova York que, além de receber clientes da região, funciona como um centro de treinamento para jovens talentos. "Há mais de dez anos, contamos com um programa que oferece a possibilidade de atuar nos Estados Unidos e garantir experiência com a língua, com a cultura de negócios e com o alto nível de exigência do mercado americano", afirma o sócio José Ricardo de Bastos Martins.
Para o professor Ricardo Castilho, diretor-presidente da Escola Paulista de Direito (EPD), é necessário saber lidar com os sócios, que podem começar uma verdadeira guerra durante as operações. "Há demandas decorrentes de divergências entre os acionistas e, sobretudo, contratos empresariais que transformam o status societário das organizações, o que gera responsabilidades, obrigações e direitos."
No Fortunato, Cunha, Zanão e Poliszezuk Advogados, banca especializada em direito empresarial com contratos em Angola, há necessidade de advogados especializados na legislação de países em desenvolvimento. "É um novo mercado que exige do profissional o domínio das leis comerciais brasileiras e dos códigos societários de outros países", diz o sócio Marcos Vinicius Poliszezuk. "Faltam profissionais com esse perfil. Quem se adiantar a isso ganhará diferencial de mercado."
O Insper Instituto de Ensino e Pesquisa oferece um programa de pós-graduação em direito societário. São 360 horas aulas e a turma de abril teve as inscrições esgotadas. O próximo curso, em julho, recebe matrículas até o dia 17 de julho.
Fonte: Valor Econômico